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  • Cabanha Syma
  • Cabanha Syma
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 Vidas estabilizadas, filhos se encaminhando e ninho vazio. Marta, minha eterna companheira, não me negou fogo para mais um desafio: a volta ao campo! Murmurou daqui, reclamou dali, questionou ser “longe” de Porto Alegre e por ai vai. Mas viemos, dessas coisas de negócio, parar nas Cacimbinhas – Pinheiro Machado na Fazenda Moinhos de Vento. Me lembrei do pai que adorava falar em atavismo. Sim, meu avô materno da família Peres era natural de Cacimbinhas mesmo. Afinal o Pipe, meu irmão menor chamado João Francisco, já estava lá e noticiara a Fazenda.

   O entusiasmo de criar os Merinos Australianos! Afinal, estávamos na terra das ovelhas a 400m acima do nível do mar. Lã fina, lavar, cardar, fiar e teares, as cores, estampas e tecidos a serem criados pelo Dudu, meu filho. Bom, o sonho urbano se foi com a dura realidade da manqueira dos cascos brancos dos merinos.

Mas eu queria mesmo era cavalgar pelos campos verdes ao lado da Marta. Vieram os crioulos. Primeiro comprei a preta domada para ela, a XUXA do Painel. Faltava a minha tordilha negra. Veio a TK Amarillis. O entusiasmo foi tanto que entrei Uruguay adentro atrás do meu basto paysandú de 4 cabeças. Num dos retornos de um passeio por Buenos Aires, me vi entrando no avião da Tam, em Ezeiza, carregando no ombro a encilha portenha completa que havia comprado de presente para Marta. Tudo para cavalgarmos juntos nos campos altos do pampa gaúcho da Moinhos de Vento. Que belo sonho!
     Hã o Canal Rural! Bom, virou o programa predileto da família. Hoje tem remate. Preparam-se os comes e bebes. Às nove horas da noite, todos em frente à TV para aprender com o discurso do Fábio Crespo. Filho desse, neto daquele, linha baixa, campeão disso e por aí vai. O Hornero se tornou assunto durante os almoços. Que cachaça!
       Assistindo uma das edições do Remate Paineras realizado no Terraville, em Porto Alegre, veio a terceira égua, uma alazona (à propósito), a BT Apassionata. Os preços estavam lá em cima. Era um eguão em pista, mas a Mariana alerta que a potranca havia se machucado no embarque tal e tal. O preço tranca na nossa medida e ficamos com a linda potranca. Vibração absoluta. Festa. Temos o nosso primeiro BT / Hornero. Hoje ainda mimo de nosso criatório. Fez uma família aqui.

   

    Como a maioria dos guris nascidos na fronteira do Rio Grande do Sul com as Províncias Cisplatinas, o contato, na infância, com o campo, cavalo, gado, ovelha e cachorro é uma experiência comum. Guardo na memória afetiva, a lembrança da primeira vez que vi o cavalo crioulo. Quiçá tivesse uns cinco anos de idade. Ou seja, no início dos anos 60. Naquela época, afora os automóveis precários, as estradas não existiam. Haviam as “carreteras”, nas quais se interligavam os corredores de acessos as estâncias. Assim, o avião ainda era o meio mais fácil de chegar até as fazendas, dependendo do tempo e clima do lugar, como diziam. Meu pai, vizinho do Coronel Chico Flores, fora convidado para um churrasco de aniversário do Coronel na Estância São Miguel, lá para as bandas do Caty, a uma distância de aproximadamente 100 km de Livramento.
    Em uma manhã de domingo, com sol alto e tempo bom, lá fomos nós: o pai, a mãe e eu. Chegamos ao aeroclube para embarcar no “Cessninha”, verde e branco e com 3 lugares, que pertencia ao meu avô e era pilotado pelo meu tio Benito Cademartori. Taludinho, me acomodei no buraco da bagagem atrás do banco no qual viajava minha mãe. Em meia hora sobrevoamos a pista em direção ao campo da Estância São Miguel, pouco antes do meio dia. Discursos em homenagem ao Coronel, churrasco farto na sombra, saladas, ambrosia e doce de abóbora de sobremesa. Até que, em um momento, conduzidos pelo Coronel, os convidados se dirigiram a um enorme mangueirão de pedras. Pendurado na porteira, meus olhos brilharam com uma fantástica manada de éguas gateadas formadas que me pareciam todas iguais e desfilavam uma a uma para os convidados. Estava diante da famosa tropilha de crioulas gateadas do Coronel Chico Flores, criatório que teve a continuidade nos mesmos campos da São Miguel, pela família Matos. Às quatro horas da tarde, com o sol ainda alto se direcionando ao Oeste, levantamos voo de retorno. Vapt-vupt e o verde do campo foi se distanciando. A fantástica tropilha de éguas crioulas gateadas do Coronel Chico Flores, gravou na minha memória e lá está, ainda em cores, mesmo passado tanto tempo! Intacta.

  Ainda guri, o lombo do cavalo era um lugar comum, de todo santo dia. A sela “paysandú”, presente da Tia Florinha, o pelego branco e o preparo chato de 12 que eu tanto cuidava e gostava. A cada noite, depois da janta, ficava atento para escutar a organização dos trabalhos do outro dia na estância. Sendo com o bicho ovelha, tudo era morno e devagar. Sendo com gado, sabia que seria ágil e que iria correr no meu alazão. Cavalos altos e esguios e eu, com pernas e estribos curtos. Era um parto cada montada. Bem diferentes das crioulas gateadas do Coronel Chico Flores, grossas e pequenas. Anos depois vim a saber que, como diziam, o cavalo rio grandense era cruza com puro sangue inglês, sem rusticidade e resistência.

Assim, não aguentavam o tranco diário do trabalho nos pedregosos campos de pastagem fina. Pensando hoje, lembro que se afinavam. Estância grande, cavalhada grande. Então vinham as reclamações de meu pai. "Tem muito cavalo na invernada, seu Pedro Marçal", dizia o negro velho capataz da estância. Cavalo pasta por dois bois!

    Pois até que chegou na estância o primeiro crioulo, vindo da Cabanha Santo Angêlo de Uruguaiana, do Dr. Angêlo e Dona Elsa Bastos, muito amiga da minha avó Conceição. O tio Ramãozinho ia anualmente ao Remate dos Bastos para comprar a renovação da carneirada do vô e em um daqueles anos trouxe o primeiro crioulinho.
    A peonada torceu o bico para aquele cavalinho que dava na metade da altura das éguas velhas, mas que no choque genético mudou o perfil da cavalhada da estância. Na continuidade vieram os JAC de sangue Cardal do João Antonio Borges da Cunha e por aí aprendi a conhecer os Crioulos que tanto admirava nas primeiras exposições de Esteio nos anos 70. Pano rápido!

    Gurizito, me mandaram para Porto Alegre para estudar no Colégio Rosário, onde meu pai havia colado grau. Dez horas de Ouro e Prata e vi o dia clarear, enxergando a capital da Ponte do Guaíba. O apartamento na Vigário José Inácio, a turma da gurizada do interior reunida no Top Set e o bar da esquina da Marechal Floriano. Assim a vida foi fluindo até os anos dourados na Faculdade de Direito da PUCRS, o primeiro carro, as gurias, as festas. Com  a urbanização, a “campanha” da infância foi sendo esquecida. O enfrentamento da Vida como Ela É, os confrontos, as perdas, os ganhos (Lya Luft), os caminhos, as opções, as escolhas, as derrotas, os êxitos. Pano rápido!

    Acompanhando o meu amigo e “irmão” da infância fazendo as campanhas de futebol profissional do Glorioso Grêmio Foot Ball Santanense, tive a oportunidade de conhecer o interior do Rio Grande do Sul. Anos mais tarde, como advogado, a vida me oportunizou conhecer praticamente todo o Brasil na sua cruel realidade, no interior de todas as regiões, mesmos as mais distantes. Duas certezas: o Rio Grande do Sul é o patinho feio da Federação Brasileira. É o único diferente da identidade nacional. A segunda: Há muito deixou de ser o celeiro vanguardista. Perdeu essa posição. Mas o Grêmio Porto Alegrense, o inigualável verde dos campos gaúchos, o céu azul que "é só olhar para ver que sou do Sul", cantado pelo poeta Elton Saldanha, nunca me deixaram romper as raízes, por mais vantajosos que fossem os trabalhos. Aqui fiquei e daqui irei. Pano Rápido.

    Bem, redescobri os Bastos de minha infância, os Tellecheas, os crioulos de UruguaYork. Logo veio o primeiro remate da Tradição e nele um lote de éguas da São Bibiano, de Bagé, Pelotas, Aceguá e por aí formamos um mosaico numa manada de 50 éguas como investimento inicial. Marta e Sylvia Maria envolvidas com o estudo de pedigree, origens, pelagens e famílias de crioulos. Tudo lá em casa virou um crioulismo absoluto.
    A essa altura logo chegamos à conclusão que precisávamos de um padrillo Pai de Cabanha. Que fosse equilibrado, raçador e padronizasse aquele mosaico de éguas. Veio a operação São Francisco. Família reunida. Decidimos que não íamos trocar a camionete, pois o dinheiro seria investido na compra à vista do pai da Cabanha. Tensos assistíamos o remate da São Francisco de Bagé com o propósito de adquirir o ROMANCERO CHICO, um gateado tradicional, aquilo que sonhávamos. Leilão de sucesso e concorrido. Nós em corrente lá em casa, resistindo pelo canal Rural lance por lance, sem frouxar. O cavalo filho de uma original égua Calaguala dos Sarmentos com o CRT Guapo tinha que ser nosso. Conseguimos. Compramos. Festa em casa!

    E assim formamos o nosso criatório de crioulos registrado na ABCCC com o prefixo SyMa, iniciais do meu nome e da Marta. Tudo foi decorrendo por efeito e consequência, sendo formado ao longo do tempo, como se fosse um processo (para não perder a mania de advogado). Tudo no seu tempo. Veio a necessidade de estrutura física, alimentação complementar, pastagens invernais, logística, orientação profissional (do Claudio Neto Azevedo, nosso técnico ABCCC), sanidade animal (cuidada pelo médico veterinário Jarbas Xavier), logística de deslocamentos, doma e adestramento, formando-se o residente cria da casa, Anderson Bueno, a equipe de apoio, a regência administrativa do Leonardo Ilha e aos pastos e tratores, com José Irineo.

    Ao longo desses primeiros sete anos, formamos a equipe da Cabanha SyMa – Crioulos, em Pinheiro Machado-RS, na Fazenda Moinhos de Vento. Nós, família Sylvio e Marta Cademartori, estamos muito contentes com os resultados que passo a passo vamos galgando e realizados com o nosso criatório de Crioulos, que realmente é movido pela paixão.

SYLVIO CADEMARTORI NETO